quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Um momento Pessoa

Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...(...)
Um colo ou berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no Inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...

O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
(Photo Henri Cartier-Bresson)


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre

Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.
Ela nada pode

Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.
Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Ella

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