segunda-feira, 10 de julho de 2006

O Amanhã


Hoje é assim... vou suster a respiração e aguardar. Todo o peso do amanhã suspenso no vazio, todo o insustentável peso de ser equilibrando-se no fio da navalha. Dada a natural tendência para a asneira talvez seja preferível desejar o melhor e esperar o pior. Prepara-se o ser. E o que vier... voilá! O passado ensina-nos que o mais profundo golpe sara em tempo devido. Deixa cicatriz mas sara. E essa cicatriz não é mais que o mapa dos caminhos percorridos, a memória intemporal que não nos deixa voltar atrás e perder o rumo. Assim, espero hoje pelo futuro... em paz... quer com o passado quer comigo! Em paz...
Ella


Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos —
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.

Álvaro de Campos

Sem comentários:

Enviar um comentário