quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A casa quieta

(título plageado descaradamente de um livro do meu agrado)

Fecho a porta por trás de mim.
No corredor ressoam pequeninos pés que se atropelam enquanto correm. Da tua salinha escoa a melodia do 2º andamento da 5ª sinfonia de Mahler entrelaçada no burburinho cúmplice das vossas vozes. Espreito. Vejo-me aninhada ao colo do papá adormecida pelo doce embalo desse odor a livros, música, cigarros, segredos e pequenos tesouros. No pequenino quarto da titi, os índios jogam ao quarto escuro. Sentada na mesa da cozinha a Agostinha joga à bisca enquanto a Júlinha desenha carinhosamente com canela o nosso nome nas tacinhas de arroz doce ainda morno. Aquele cheiro ameno a tarte de pastel de nata, ou talvez maçã. O Paco estendido de atravessado no meio do corredor sempre carente de festas. A avó que nos apanha e esborracha beijos nas bochechas. As vozes que se empurram na sala de jantar. E ao fundo do corredor o murmúrio do que foi e já não existe. O eco dos passos perdidos. O silêncio do futuro.
Fecho a porta por trás de mim.

Ella

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