Foto do Louis.
E enquanto as hormonas do "esquecimento" não começaram a actuar vamos ver se ainda consigo colocar a história de pé...
Tudo começou com uma mãe incrédula de que estaria efectivamente em trabalho de parto, um pai em negação, e um dia de contracções irregulares que se foram regularizando aos poucos. Quando finalmente o pai se convenceu, pelo sim pelo não, metemo-nos no carro rumo a Lisboa enquanto ouvíamos na rádio o concerto do Carlos do Carmo no Festival do Crato. Ao chegarmos, como as contracções já estavam de 5 em 5 minutos e cada vez mais intensas, decidimos fazer uma visita à Maternidade para tirar as dúvidas. Com a descontracção e a calma de quem achava que a iam mandar para casa enganei a enfermeira da triagem, mas o CTG e os 3 cm dilatação não deixavam dúvidas... O mini-moi ia nascer. Depois da bendita epidural foi esperar que a dilatação chegasse lá. A noite foi passando e ao nascer do dia, assim do nada, tinha as médicas a dizer-me para fazer força. Nós incrédulos. Mas é agora? Rapidamente perceberam que iam precisar de ajuda para fazer nascer este pacotinho de 3,780g. Em pouco tempo e uma ventosa depois, o mini-moi estava cá fora. O meu grande peixinho nasceu ainda dentro do seu aquário. Tudo assim... Muito, muito, muito intenso. Num instante. Não senti dor, mas senti tudo. E sentir tudo, chega a doer. Tenho hoje um respeito enorme pela minha mãe e por todas as mães que passaram por isto sem epidural. Como é que é possível? E como é que é possível a nossa cabeça não explodir com um aneurisma? Mistério. Enfim... Segundo as médicas para primeiro filho todo o processo não poderia ter corrido melhor, eu continuo a achar que a nossa evolução tem de continuar... Isto não pode ser a melhor solução.
Ao contrário do que tinha pensado não chorei quando o vi pela primeira vez quando o colocaram em cima da minha barriga. Chorei momentos mais tarde quando o vi vir ter comigo ao colo do Pai e ficamos, por fim, os três.
Estrela da tarde
de José Carlos Ary dos Santos
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.
Carlos do Carmo & Bernardo Sasseti


















